
Premier demissionário do Reino Unido,Keir Starmer,em discurso diante da residência de Downing Street — Foto: Henry NICHOLLS / AFP
GERADO EM: 22/06/2026 - 19:28
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Em uma peculiaridade digna de ficções políticas,o anúncio da renúncia do impopular premier britânico,ocorreu na véspera do aniversário de 10 anos da votação que retirou o Reino Unido da União Europeia (UE),o “Brexit”. Um referendo que tinha como promessa entregar o país de volta aos britânicos,mas que foi a porta de entrada para uma década na qual as crises e na qual as trocas de moradores na residência oficial de Downing Street se tornaram rotina.
— Podemos ver os prados ensolarados — disse,em maio de 2016,Boris Johnson,o excêntrico prefeito de Londres que se tornou a principal voz pró-Brexit e que seria,anos depois,um igualmente peculiar primeiro-ministro. — Creio que seríamos loucos se não aproveitássemos esta oportunidade única de atravessar aquela porta,porque a verdade é que não fomos nós que mudamos.
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Em Londres,o antagonismo à União Europeia não novo — a premier Margaret Thatcher alertava para o surgimento de um “Superestado Europeu —,mas atingiu um momento crítico no início da década passada. David Cameron,o jovem premier conservador à época,tentava apagar incêndios e temia o surgimento de novas forças anti-Bruxelas,como o Ukip,embrião do atual Reform UK,de Nigel Farage.
Para preservar seu emprego,Cameron prometeu,em 2013,um referendo sobre a permanência na União Europeia caso os governistas vencessem as eleições gerais,dois anos depois. Nas urnas,o Partido Conservador obteve a maioria no Parlamento,pela primeira vez desde 1992,dando ao premier uma dose exagerada de confiança.
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Premier britânico,David Cameron,ao lado de sua mulher,Samantha Cameron,após votarem no referendo sobre a saída da União Europeia — Foto: LEON NEAL/AFP
O anúncio da votação foi feito em fevereiro de 2016,após conversas sobre novos termos para a relação entre Londres e Bruxelas,com benesses aos britânicos,que entrariam em vigor caso a permanência na UE fosse aprovada. Para Cameron,o plano parecia ideal para acalmar seu partido,conter o crescimento do Ukip e sair fortalecido perante os demais líderes europeus.
Uma aposta que,com a vitória do Brexit por 52% a 48%,marcou o ocaso do líder conservador.
— Há pessoas que nunca me perdoarão por ter realizado um referendo — admitiu Cameron em 2019,em entrevista ao New York Times.

Nigel Farage,líder do partido Reform UK,´durante reunião da CPAC nos EUA — Foto: Andrew Harrer/Bloomberg
Rapidamente,as promessas de “prados ensolarados”se viram diante dos desafios das inéditas negociações para o divórcio entre Londres e Bruxelas,assim como seus impactos na vida real. De acordo com estudo do Centro de Pesquisa de Política Econômica,entre 2016 e o final de 2025,o PIB per capita foi até 8% menor do que se o país permanecesse no bloco. Na semana passada,o Banco da Inglaterra estimou que o Brexit custou ao menos 6% em crescimento econômico.
— O Brexit é um entrave constante para a economia — disse à rede CNN Michael Saunders,consultor sênior da consultoria Oxford Economics.
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A votação também abriu caminho para 10 anos de instabilidade em Westminster. Theresa May,a premier que sucedeu David Cameron após sua renúncia,foi confirmada pelas urnas em 2017,mas se mostrou incapaz de aprovar um acordo de saída,levando a novas eleições em 2019. A votação contundente confirmou o folclórico Boris Johnson — um dos cabos eleitorais do Brexit,ao lado de Farage — no poder e o pôs à frente das tumultuadas negociações finais com Bruxelas.
— Este é o alvorecer de uma nova era em que não aceitamos mais que as suas oportunidades de vida,as oportunidades de vida da sua família,devam depender da região do país onde você cresceu — disse,em discurso logo após a oficialização da saída da UE,em janeiro de 2020.

Premier do Reino Unido,faz discurso em convenção do Partido Conservador — Foto: Oli SCARFF / AFP
Dois meses depois,Johnson voltaria à TV para anunciar que o país estava sob lockdown por causa da pandemia da Covid-19,e deu início a uma gestão da crise sanitária classificada como “tóxica e caótica”,e cuja demora em decretar medidas de controle resultou em 23 mil mortes adicionais,de acordo com o relatório de uma comissão parlamentar de inquérito. O escândalo das festas promovidas por assessores do premier (das quais Boris também participou) durante a quarentena levou à sua renúncia,mas não aplacou a crise conservadora.

Queda da premier britânica era motivo de piada entre tabloides britânicos,que chegaram a questionar se o seu mandato duraria mais que uma alface — Foto: DANIEL LEAL/AFP
Liz Truss,sua sucessora,ficou conhecida por ter sido a última premier a se encontrar com a rainha Elizabeth II e por ter tido um mandato mais curto do que a vida útil de uma alface,44 dias. Rishi Sunak,o novo novo premier,conseguiu controlar a inflação,mas não evitou o derretimento de sua imagem. Nas eleições de 2024,os trabalhistas retornaram ao poder com uma vitória acachapante e promessas de melhorar os laços com a UE.
— Vamos fortalecer as nossas relações existentes e construir novas — disse Starmer,em julho de 2024. — Isto inclui redefinir a nossa relação com a UE,porque acredito que o Reino Unido e a UE,trabalhando em conjunto como parceiros soberanos,constituem uma poderosa força para o bem em todo o nosso continente.
O desafiante: Quem é Andy Burnham,nome mais cotado para substituir Keir Starmer como premier do Reino Unido?
Nesta segunda-feira,Starmer anunciou que renunciará,após semanas de fritura pública por seus colegas de partido — ligada,dentre outros temas,à sua posição sobre Gaza,cortes de benefícios e à perda de confiança interna— e diante de sinais semelhantes aos que antecederam o Brexit.
Nas eleições locais,em maio,o Reform UK foi o mais votado,e os trabalhistas perderam quase 1,5 mil cadeiras em conselhos regionais. As próximas eleições gerais estão previstas para 2029,mas uma pesquisa divulgada na semana passada mostrou o Reform UK como o mais popular e os Verdes,antagônicos a Starmer,em quarto lugar,bem perto de trabalhistas e conservadores,em mais um sinal de insatisfação do público com os rumos e perspectivas do país. Tal como em 2016.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro