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O Parkinson fez Daniel Barenboim se afastar dos palcos, mas agora ele está de volta

Aug 18, 2026 estilo de vida saudável IDOPRESS

Daniel Barenboim na Ópera Estatal de Berlim,em 2017 — Foto: AFP/Odd Andersen

Em uma entrevista de 2006,o maestro Daniel Barenboim declarou sentir uma afinidade especial pelo precoce Mozart. "Olha,sei muito bem o que significa ser sempre jovem demais para tudo",disse Barenboim,ele próprio um ex-prodígio infantil. A afirmação soa verdadeira: ele já era um pianista de renome internacional aos 10 anos e estreou no Carnegie Hall aos 14. Agora,aos 83 anos e enfrentando o Parkinson,ele se sente velho demais para muitas coisas — embora tenha realizado muito desde que anunciou,em 2022,sofrer de uma "grave condição neurológica".

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Ele deixou o cargo de diretor musical da Ópera de Berlim um ano depois do anúncio e passou por inúmeros cancelamentos de apresentações desde então. Mas agora Barenboim tem aparecido ocasionalmente com a Staatskapelle Berlin,a Filarmônica de Berlim e o La Scala,em Milão. A confirmação de que seu problema era a doença de Parkinson veio apenas no ano passado,quando sua fragilidade já havia se tornado visível e inegável.

A doença,no entanto,pouco fez para diminuir o comprometimento de Barenboim com a West-Eastern Divan Orchestra,o grupo que ele fundou em 1999 com o intelectual palestino Edward Said para reunir jovens músicos árabes e israelenses. Na quinta-feira,Barenboim apresentou-se com a orquestra no anfiteatro Waldbühne,em Berlim,diante de um público numeroso e grato.

O palco ao ar livre Waldbühne é uma parada habitual na turnê anual de verão da West-Eastern Divan,que este ano incluirá o Musikverein em Viena,o Concertgebouw em Amsterdã e a Philharmonie de Paris. Embora estivesse um tanto contido,Barenboim parecia feliz por estar em um ambiente familiar.

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Em um projeto ambicioso,Barenboim programou mais nove apresentações com a orquestra. Há também um novo Festival West-Eastern Divan planejado para Berlim,em novembro,que oferecerá a oportunidade de ouvir a orquestra tocar obras de Pierre Boulez no clube de música techno Berghain.

O concerto da semana passada foi um dos quatro deste mês em que a Orquestra West-Eastern Divan contará com a participação de Yo-Yo Ma (outro prodígio musical) no Concerto para Violoncelo em Si Menor,de Dvořák. Quando Ma e Barenboim entraram no palco abraçados,era difícil distinguir se o gesto demonstrava apoio,amizade ou ambos.

Foi uma espécie de reencontro: Ma havia sido convidado para o primeiro workshop da West-Eastern Divan,antes mesmo de se imaginar que o projeto evoluiria para uma orquestra. Seu respeito por Barenboim ficou evidente na quinta-feira pela atenção que lhe dedicava durante a obra de Dvořák,embora houvesse pouco a que prestar atenção: a batuta na mão direita de Barenboim mal pulsava,e sua mão esquerda se erguia apenas ocasionalmente para moldar ou indicar expressões aqui e ali.

Esses gestos discretos,eram extremamente eficazes,e maestros já fizeram mais com ainda menos: vem à mente o exemplo de Leonard Bernstein regendo uma sinfonia de Haydn apenas com as sobrancelhas. Quando Bernstein fez isso,em 1984,ele podia contar com a engrenagem perfeita da Filarmônica de Viena. Os músicos da apresentação de quinta-feira não estavam tão sincronizados e nem sempre podiam contar com orientações claras de Barenboim,que regeu sentado.

Foi uma sorte que Ma tivesse acabado de vir de Tanglewood,onde organizara uma execução da sinfonia "Pastoral" de Beethoven sem maestro. Em uma nota do programa,ele descreveu a experiência como "um exemplo de como pode soar uma liderança compartilhada e uma lição sobre a prática da responsabilidade democrática". Essa foi exatamente a responsabilidade que ele e a orquestra assumiram nas interações mais íntimas do concerto. O diálogo entre o violoncelo e as madeiras,e mais tarde entre o violoncelo e um violino solista,foi pura música de câmara.

O recente experimento de Ma em Tanglewood alinha-se ao ethos musical e humanitário da West-Eastern Divan,que Barenboim expressou de forma sucinta após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023: "Temos de ouvir uns aos outros". Em certo momento da segunda parte do concerto,durante a Sinfonia nº 3 de Schumann,a mão esquerda de Barenboim apontou para a própria orelha.

Ele passou mais de 25 anos proporcionando a essa orquestra algo que ela não conseguiria sem ele: uma sonoridade própria. Pesada,porém transparente. De certa forma,à moda antiga,mas sem afetações. Essa sonoridade estava presente nas explosões controladas da obra de Schumann e na serenidade do contraponto. É,sem dúvida,a sonoridade de Barenboim,mas é também uma identidade que a orquestra assumiu e desenvolveu.

Barenboim parece ter reconhecido isso. No comunicado em que anunciou sofrer de Parkinson,ele afirmou querer “garantir a estabilidade e o desenvolvimento da orquestra a longo prazo” e “desempenhar um papel ativo para assegurar que a Divan tenha a oportunidade de trabalhar com regentes de excelência”.

No entanto,a primeira iniciativa de Barenboim nessa direção foi um raro passo em falso: contratar seu amigo próximo Zubin Mehta para reger uma turnê com a orquestra no início deste ano. Mehta é excelente — mas,aos 90 anos,ele também rege sentado. Isso não constitui um plano para o futuro,nem uma maneira de manter vivo esse símbolo de uma cooperação internacional ameaçada.

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