
Sala vazia para sessão diurna de 'Velhos bandidos',com Fernanda Montenegro,em cinema da Zona Sul do Rio — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Redes de cinema exibem filmes nacionais pela manhã para cumprir a cota de tela obrigatória. A estratégia evita ocupar horários nobres de blockbusters estrangeiros. Sessões matinais frequentemente ficam vazias e com telas apagadas. Para combater a prática,a Ancine anunciou bonificações para exibições de produções brasileiras após as 17h. Especialistas apontam brechas na legislação atual,enquanto exibidores cobram melhores políticas de fomento. O órgão regulador prevê uma revisão das regras para o ano de 2027. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Não passava do meio-dia,na quinta-feira da semana retrasada,quando uma mulher acompanhada do filho entregou ingressos de “Zuzubalândia — O filme” na entrada do Cinemark Botafogo,na Zona Sul do Rio,e deixou para trás um par de queixos caídos. Se fosse em um longa-metragem,a cena seria o ápice de um milagre,sugeriu um dos funcionários. “Dou 30 dias ou mais para alguém aparecer novamente nesta sessão”,apostou o outro atendente do cinema.
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Os gestores jamais confirmaram oficialmente,mas a equipe afirma saber que a produção (lançada em 2024 e já disponível no serviço de streaming da HBO Max) faz parte de um plano bem enquadrado pela empresa desde 2025. O motivo seria cumprir a lei de cota de tela,que obriga cinemas de todo o país a exibirem uma porcentagem mínima de filmes brasileiros.
Para cumprir a regra,pero no mucho,exibidores inauguraram,do último ano pra cá,uma faixa matinal (de segunda a sexta-feira,entre 11h e meio-dia) para filmes nacionais com duração máxima de 90 minutos. Assim,os horários com apelo comercial,a partir das 14h,não ficam comprometidos pelas obrigações da lei — e os blockbusters estrangeiros seguem livres,leves e soltos nas telonas.
O resultado são sessões fantasmas no início do dia. Nas projeções das demais salas do Cinemark Botafogo acompanhadas pelo GLOBO — com os filmes “Zico,o samurai de Quintino”,“Velhos bandidos” (recém-chegado ao Prime Video) e “O gênio do crime”,todos lançados em 2026,e “Authentic games no Império Desconectado” (2025) — não havia ninguém. As telas estavam apagadas. Apenas o áudio era reproduzido. Na semana passada,idem. “Houve vezes em que as cinco salas estavam com o mesmo longa,e tudo no breu”,revela um funcionário.
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No escurinho,a prática vem gerando celeuma. Há duas semanas,no mesmo dia em que o jornal “Folha de S.Paulo” publicou uma reportagem sobre o assunto,a Agência Nacional do Cinema (Ancine) — responsável por fiscalizar o cumprimento da cota de tela — expediu uma instrução normativa em que passa a conceder bonificações a sessões de filmes nacionais após as 17h. A medida já estava prevista,segundo documentos apresentados pela autarquia,que acompanha o caso das projeções matinais às moscas desde o último ano.
A rigor,redes como o Cinemark e o Kinoplex (que também aderiu à estratégia nas últimas semanas) não descumprem a lei ao programarem filmes brasileiros em turnos sem público. Mas o não estabelecimento de horários próprios para as exibições obrigatórias aponta uma fragilidade na norma,avaliam realizadores. Em nota,a Associação Paulista de Cineastas aponta que a regulamentação do mecanismo é “propositalmente frouxa”.
— A cota de tela brasileira sempre foi falha,com muitas brechas — destaca a produtora executiva Marina Rodrigues,especialista em políticas públicas do audiovisual. — O lobby dita o rumo da sala de exibição. Para abrir ainda mais espaço durante o verão americano,eles usam todas as brechas que conseguem.
A Ancine ressalta que a ferramenta de incentivo,reimplementada há dois anos,é constantemente reajustada a partir de análises de resultados e conversas com exibidores. Recentemente,o Cinemark foi advertido devido a um “abuso do direito de programar”,detalha Leandro Mendes,secretário de regulação da instituição. Mais do que isso,porém,não há o que ser feito. Ao menos por ora,como diz.
A depender das análises deste ano,2027 pode descortinar mudanças significativas,algumas já apontadas na recente instrução normativa,como a determinação de exibições em horário nobre.
— Se há um aumento no número de sessões,mas sem um crescimento de público,a cota de tela não é efetiva. Para o ano que vem,certamente teremos uma revisão — adianta Mendes. — Se houver menos sessões de filmes brasileiros num cinema,mas em horários mais relevantes e com um aumento do “market share”,daremos bonificações aos exibidores. A meta é mais bilhetes vendidos.
Em reuniões recentes com agentes da Ancine,representantes de exibidores alegaram que a colocação de um filme na grade por mera obrigação legal é sinônimo,quase sempre,de dificuldade financeira. A questão em suspense ainda é: como melhorar as estratégias de lançamento de tais produções para arrebanhar mais espectadores?
— Se um filme nacional vende,os cinemas os mantêm,vide “O agente secreto” (2025) e “Ainda estou aqui” (2024) — sublinha o secretário. — Os exibidores não veem a Ancine como inimigo. Mas nos cobram políticas públicas que calibrem essa relação. É uma conversa que envolve produtores,distribuidores e outros setores. Nas próximas oitivas entre Ancine e exibidores,teremos bons debates,talvez um pouco acalorados. Mas acho que agora serão verdadeiros.
No fim de 2025,o GLOBO contatou a rede Cinemark ao identificar a exibição reiterada de obras nacionais na primeira faixa de horários,muitas vezes com o mesmo filme em mais de uma sala,o que comercialmente não parece razoável. A empresa respondeu,à época,que vinha estudando maneiras de dar mais espaço e valorizar a produção nacional em sua programação: “A rede vem avaliando novas alternativas de horários para filmes nacionais,analisando o comportamento e aderência do público para estas novas faixas”.
Procurada novamente,a exibidora se limitou a dizer que “não comenta sobre cota de tela”. Para a Ancine,a empresa alegou que as sessões matinais fazem parte de um projeto voltado a escolas.
No momento,a rede Kinoplex projeta filmes de 2025 como “Mauricio de Sousa: o filme” e “D.P.A 4: o Fantástico Reino de Ondion” nos horários de 11h10 e 12h10 em cinemas da rede no Rio. Em contato com o GLOBO,a empresa não tratou especificamente da faixa matinal,mas reconheceu que a cota de tela “tem como principal objetivo garantir espaço para a produção nacional dentro do circuito exibidor” e busca,por isso,“equilibrar o cumprimento da política pública com a melhor experiência para o consumidor”. A rede acrescentou que a cota de tela “tem um papel importante ao garantir visibilidade mínima para as produções nacionais”,mas ponderou que a competitividade do cinema brasileiro também depende de fatores como “investimento em produção,marketing,distribuição e construção de conexão com o público”.
Em nota,a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex,a Abraplex,afirmou que não comenta estratégias comerciais ou de programação individuais de suas associadas.
Uma fonte da Ancine apontou que o número de sessões de “Zuzubalândia — O filme” triplicou de 2025 para 2026. No último ano,aliás,a Cinemark atingiu a porcentagem requerida de 16% da cota de tela sem considerar as projeções da animação. Neste ano,analistas temem que o segundo semestre — tradicionalmente ocupado por grandes lançamentos de Hollywood — fique esvaziado de histórias nacionais nas telonas da rede,já que a porcentagem provavelmente será batida antes.
É outro motivo de discórdia sobre o mecanismo,que não prevê exibição de longas brasileiros ao longo de todo o ano (na Argentina,por exemplo,os exibidores têm cotas a serem cumpridas a cada trimestre,regularmente).
— Atualmente um grande multiplex precisa ter 16% das sessões de filme brasileiro,mas o que são na prática? A política não informa se é por mês ou se é anual. Claro que os exibidores irão se aproveitar disso,principalmente com a Ancine sem aplicar as sanções que deveria — explica Marina Rodrigues,que defende que a política de cotas deveria ser vinculada a incentivos fiscais. — Sempre defendi uma cota de tela que venha atrelada a benefícios fiscais para os exibidores. Quanto mais tempo os filmes brasileiros estiverem em cartaz,menos ele pagará de impostos para manter a sala. Algo que o distribuidor internacional não consegue oferecer.
Atualmente,a multa para irregularidades na cota de tela é de 5% da receita diária multiplicada pelo número de sessões em descumprimento da norma. Para cinemas pequenos,é muito. Em fiscalizações da Ancine,várias salas informaram que fechariam as portas com as sanções. Com isso,a instituição fica num impasse — a lei que deveria iluminar,em solo tupiniquim,obras made in Brazil acaba trancando espaços que muitas vezes,são os únicos de uma cidade.
— Será que é adequado fechar a única opção cultural da cidade ou criar um mecanismo sólido que reveja também isso? — indaga Leandro Mendes. — É claro que,em cidades grandes,o contexto é outro. Mas queremos dar proporcionalidade para essa situação,porque o objetivo da lei não é fechar salas.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro