
Síndrome da pessoa necessária — Foto: Shutterstock
GERADO EM: 24/07/2026 - 11:57
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Deborah Fachini sempre acreditou em seu dom de resolver os problemas dos outros,e se tornou responsável pelos cuidados com a sogra após a morte do sogro. Fazia das compras de supermercado à companhia nas idas ao médico. A paulistana,de 42 anos,considerava-se fundamental no seio familiar e entrou em choque quando a viúva arranjou um novo companheiro. “Fiquei mal,porque já não era tão necessária para ela”,admite a empresária. “Foi difícil entender qual era o meu papel naquela dinâmica e o quanto fui sobrecarregada emocionalmente. Tendo a me responsabilizar pelas coisas mais do que posso,e até nas que nem me cabem. Quero ser útil,mas quando não consigo,sofro.”
O relato de Deborah vai ao encontro do que a internet batizou de “Síndrome da Pessoa Necessária”,o padrão de assumir responsabilidades excessivas e condicionar o próprio valor ao proveito do outro.
A psicóloga Alana Anijar produziu um podcast sobre o assunto com mais de 50 milhões de plays e afirma que o amadurecimento precoce na infância pode ter relação com o comportamento. “As mulheres sofrem do problema mais do que os homens,pelo histórico social que nos impõe funções de cuidado”,afirma. “A criança ‘muito boazinha’ só é muito boa para os pais,porque deixa de desenvolver a habilidade de também ser cuidada,de colocar suas vontades e seus limites. Ela acredita que só vai conseguir ser amada se for útil,servil e prestativa.”
Alana também pontua traços psicológicos clássicos de quem se identifica com o quadro. “É sempre a primeira a responder mensagens e a resolver problemas,assume responsabilidades que não são suas,é a ‘madura’ da família,a ‘conselheira’ dos amigos,sustenta a estrutura do relacionamento sozinha,sente-se culpada ao pedir ajuda ou delegar e perde espontaneidade e prazer ao tentar ser aceitável”,completa Alana. “O preço de ser indispensável para os outros é ser descartável para si mesma.”
Um episódio aparentemente trivial marcou a gaúcha Gabriele Chollet,de 24 anos. Numa viagem a trabalho,a estudante de Psicologia foi a uma loja comprar chocolates como lembrança para a família e amigas próximas e,ao distribuir os presentes,viu que esqueceu de trazer algo para a pessoa mais importante: ela mesma. “Lembrei de todo mundo,até da minha gata de estimação,e esqueci de mim. Foi quando comecei a prestar mais atenção nesse traço de personalidade: vivo para agradar as pessoas.”
Continuar Lendo
Profissional de Recursos Humanos,a paulista Isabella Dias,de 24 anos,só identificou o comportamento na terapia,iniciada em janeiro deste ano,ao relatar mais do que um cansaço físico. “Envolvia-me em problemas alheios por iniciativa própria”,comenta Isabella. “Quando acabava o pó de café no trabalho,em vez de pedir para o encarregado abastecer,tentava encontrar uma solução. E,se não conseguisse resolver,surtava. É um exemplo inofensivo,mas esse padrão se repetiu em situações mais sérias.”
A psicóloga Leticia Silva explica que pacientes com esse traço de personalidade apresentam algo conhecido como “esquema de autossacrifício sob julgamento”,um padrão clínico em que o indivíduo anula voluntariamente as próprias necessidades para poupar os outros de sofrimento,agindo por culpa crônica ou medo de ser egoísta e abandonado. Os prejuízos incluem esgotamento,ansiedade e autoestima fragilizada. “Nas sessões,o trabalho é voltado para redirecionar a autoconfiança e fomentar um altruísmo saudável,sabendo dizer não,estabelecendo limites e incentivando o início de hobbies que sejam bons para nós mesmos”,conclui a especialista.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro