
Pergaminho — Foto: Reprodução
Uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu,pela primeira vez,ler integralmente um pergaminho carbonizado de Herculano sem precisar desenrolá-lo fisicamente,em um avanço que pode transformar o estudo de manuscritos da Antiguidade. O feito foi possível graças à combinação de inteligência artificial,tomografia computadorizada e técnicas de reconstrução digital capazes de revelar textos escondidos desde a erupção do Monte Vesúvio,em 79 d.C.
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O manuscrito faz parte do acervo encontrado na chamada Villa dos Papiros,soterrada durante a destruição da cidade romana. Segundo os pesquisadores,o documento contém cerca de 70 colunas da obra Sobre os Vícios,Livro 1,atribuída ao filósofo epicurista Filodemo,que viveu na região.
Em vez de abrir o papiro — procedimento que poderia destruí-lo devido à fragilidade do material carbonizado —,os cientistas utilizaram escaneamentos de alta resolução para criar um modelo tridimensional do objeto. Em seguida,algoritmos de aprendizado de máquina identificaram diferenças microscópicas entre a tinta e o papiro queimado,permitindo reconstruir virtualmente o texto.
Para a papirologista Federica Nicolardi,responsável científica pelo projeto,a tecnologia representa uma mudança de paradigma na preservação desses documentos. Segundo ela,o desenrolamento virtual elimina a necessidade de escolher entre conservar o artefato e acessar seu conteúdo,tornando possível alcançar ambos os objetivos simultaneamente.
A iniciativa também reúne especialistas em ciência da computação. Brent Seales,um dos coordenadores do projeto,explica que os modelos de inteligência artificial foram treinados para reconhecer padrões quase imperceptíveis deixados pela escrita em papiros carbonizados,ampliando significativamente a capacidade de leitura desses materiais.
Os avanços recentes foram impulsionados pelo Vesuvius Challenge,competição internacional que incentiva o desenvolvimento de ferramentas para decifrar os pergaminhos de Herculano. Pesquisadores como Luke Farritor,Youssef Nader e Julian Schilliger receberam reconhecimento por contribuições que ajudaram a aperfeiçoar os métodos utilizados atualmente.
Apesar do resultado histórico,o trabalho está longe do fim. Estima-se que cerca de 600 pergaminhos permaneçam fechados na coleção da Villa dos Papiros aguardando análise. Os organizadores do desafio acreditam que,com o aperfeiçoamento contínuo dos algoritmos,será possível recuperar grande parte desse acervo nas próximas décadas e já oferecem cerca de US$ 1 milhão em prêmios para equipes que conseguirem avançar na leitura integral de outros manuscritos.
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