
Comer cada refeição de forma ansiosa e preocupada pode atrapalhar o bem-estar — Foto: Magnific
GERADO EM: 14/07/2026 - 21:11
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Imagine se a sua busca pela saúde se transformasse no atalho mais rápido para “perder saúde”? Em tempos de total acesso a informações e possibilidades para cuidar do bem-estar,não deveríamos ser a geração mais saudável da História? Sim,acredito que deveríamos,mas não somos. Na prática,estamos nos tornando,cada vez mais,pessoas cansadas,frustradas e ansiosas que não conseguem lidar com tudo que acreditam ser necessário.
Talvez exista um paradoxo que mereça mais atenção: cuidar da saúde também pode gerar estresse. E,quando esse estresse se torna permanente,ele deixa de fazer parte da solução para se transformar em mais um problema.
Imagine alguém que decide mudar completamente de vida em uma segunda-feira: passa a acordar uma hora mais cedo,inicia uma rotina diária de exercícios,elimina açúcar,álcool e ultraprocessados,pesa cada refeição,conta calorias,monitora o sono,mede frequência cardíaca,faz meditação e ainda promete nunca mais perder um treino.
Na vida real,essa pessoa passa o dia inteiro pensando na própria saúde. Cada refeição vira uma decisão. Cada compromisso gera culpa por atrapalhar o treino. Cada deslize parece um fracasso. A pergunta que fica é simples: ela está mais saudável ou apenas mais preocupada em parecer saudável?
Existe um conceito da fisiologia chamado carga alostática,que representa o desgaste acumulado do organismo diante da necessidade constante de adaptação. O fisiologista Bruce McEwen,da Universidade Rockefeller,mostrou que o problema não é o estresse em si,mas a sua permanência. Quando o organismo vive nesse estado de alerta,tentando dar conta de tudo,por longos períodos,aumenta o risco de doenças cardiovasculares,diabetes,declínio cognitivo e envelhecimento precoce. Ou seja,o jogo já virou. Dormir pouco gera carga alostática. Trabalhar sob pressão também. Uma rotina de mudanças excessivas,exigindo autocontrole o tempo todo,pode produzir exatamente o mesmo efeito.
O cérebro humano foi programado para economizar energia. Criar um novo hábito exige atenção,planejamento e tomada de decisão. Estudos conduzidos pelo psicólogo Roy Baumeister mostram que o autocontrole consome recursos mentais. Quanto maior o número de decisões e mudanças simultâneas,maior a chance de fadiga de decisão,procrastinação e abandono do comportamento.
Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas começam extremamente motivadas e,poucas semanas depois,voltam aos velhos hábitos. Não lhes faltou força de vontade. Faltou uma estratégia compatível com o funcionamento do cérebro.
Essa ideia é reforçada por um estudo clássico da pesquisadora Phillippa Lally,da University College London,no Reino Unido,que mostrou que um novo hábito leva,em média,66 dias para se consolidar — e não 21 dias,como popularizou o senso comum. A mensagem é clara: consistência vale mais do que intensidade.
A saúde não precisa ser uma coleção de sacrifícios. Ela precisa ser sustentável. O melhor treino é o que você continuará fazendo daqui a cinco anos. A melhor alimentação é a que melhora sua saúde sem transformar cada refeição em uma prova de resistência.
Mudar é importante. Mas mudar tudo ao mesmo tempo quase sempre custa caro demais. Cada nova regra exige energia mental. Cada restrição aumenta o risco de desistência. Quando o esforço para manter um hábito supera o benefício percebido,o cérebro procura uma saída. E ela normalmente é abandonar o plano.
Talvez,antes de acrescentar mais uma meta à lista,vale a pena fazer uma pergunta diferente: essa mudança vai simplificar minha vida ou apenas aumentar meu nível de estresse? Porque longevidade funcional não é uma competição para descobrir quem segue mais protocolos. É construir um estilo de vida que possa ser repetido até o fim.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro