
Pesquisa revela 5 fatores que definem o que vai no prato das crianças — Foto: Reprodução/ Magnific
GERADO EM: 03/06/2026 - 14:44
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Quando uma criança pede biscoito no supermercado ou insiste nos doces e rejeita os legumes no prato,a cena costuma ser alvo de julgamentos apressados,que culpam as famílias e,especialmente,as mães. Essa é uma interpretação comum,mas incompleta e equivocada,como mostra um estudo recém-concluído pelo Instituto Pensi.
Homem de Gelo: cientistas descobrem micróbios vivos em múmia de 5.300 anosBambu-da-sorte: onde colocar a planta para atrair prosperidade e equilíbrio,segundo o feng shui
A partir dos relatos de 142 pessoas ouvidas em cinco grandes centros urbanos do país,a pesquisa Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável mostra que a alimentação infantil não é definida apenas dentro de casa. Ela é resultado de um conjunto de fatores que vão além da hora da refeição: o preço dos alimentos,a jornada de trabalho dos responsáveis,o ambiente alimentar disponível,o tempo de exposição às telas e a pressão constante da publicidade voltada para as crianças.
Os depoimentos revelam como esses fatores se cruzam nas escolhas do dia a dia das famílias. Sem a pretensão de representar estatisticamente o país,o estudo ajuda a entender como pais e responsáveis conciliam,na prática,aquilo que gostariam de oferecer e o que realmente conseguem colocar no prato. As famílias sabem o que significa se alimentar bem. O problema não está na falta de informação,mas nas condições que influenciam essas escolhas.
Idealizada pelo Pacto Contra a Fome,com apoio da Food and Land Use Coalition (FOLU) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS),a pesquisa utilizou grupos focais on-line. Os encontros ocorreram entre setembro e outubro de 2025 em São Paulo,Porto Alegre,Fortaleza,Belém e Goiânia,com famílias das classes AB,C e DE. Entre os domicílios participantes,57% conviviam com uma ou duas crianças,enquanto 4% tinham três ou mais.
Continuar Lendo
Em todos os grupos,a alimentação saudável foi associada à comida feita em casa: arroz,feijão,frutas,legumes e alimentos frescos. Já refrigerantes,biscoitos,salgadinhos,macarrão instantâneo e fast food foram reconhecidos como opções menos saudáveis. O desafio está justamente na distância entre saber e conseguir fazer. É nesse espaço que entram o cansaço,o preço dos alimentos,a falta de tempo,a aceitação da criança,a praticidade e a publicidade.
Os relatos indicam que as crianças exercem forte influência sobre o carrinho de compras. Pais e mães tentam garantir refeições com arroz,proteína,frutas e legumes,mas relatam dificuldades diante dos pedidos por marcas específicas,embalagens coloridas,alimentos vistos em vídeos na internet ou associados a momentos de lazer.
Essa influência não é trivial. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Pediatrics,reunindo 96 estudos,encontrou associação entre o marketing de alimentos e o aumento do consumo,da preferência,das escolhas e dos pedidos de compra feitos por crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde,em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde,afirma em documentos oficiais que é fundamental proteger as crianças da publicidade de alimentos ultraprocessados para garantir ambientes saudáveis e prevenir obesidade e doenças crônicas.
Na prática,muitas famílias não estão apenas escolhendo entre uma fruta e um biscoito. Elas comparam uma fruta — que precisa ser comprada fresca,lavada,cortada,aceita pela criança e consumida antes de estragar — com um produto ultraprocessado barato,durável,pronto para consumo,altamente palatável e pensado para despertar desejo.

Pesquisa revela 5 fatores que definem o que vai no prato das crianças — Foto: Reprodução/ Magnific
Com presença marcante na alimentação infantil,os ultraprocessados funcionam como um atalho na rotina. Eles aparecem quando falta tempo,quando o orçamento aperta e também nos fins de semana,como forma de lazer,recompensa ou opção prática.
De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019),80,5% das crianças de seis a 23 meses consomem ultraprocessados. Entre as crianças de 24 a 59 meses,esse percentual chega a 93%. O consumo de bebidas adoçadas foi de 24,5% e 50,3%,respectivamente.
Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF),publicado em 2026,mostrou a força desses produtos nos lanches: metade das crianças pesquisadas havia consumido algum ultraprocessado no lanche do dia anterior.
Na pesquisa,a escola apareceu como um dos espaços mais importantes para a alimentação infantil. Entre as famílias com crianças matriculadas em escolas públicas,a alimentação escolar foi descrita como referência de refeição equilibrada e,muitas vezes,como uma garantia de que a criança “come de verdade”. Já entre as famílias de renda mais alta,a preocupação se concentra na lancheira,na cantina e na qualidade nutricional das opções disponíveis.
Em 2025,o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou diretrizes para reduzir gradualmente a compra de alimentos processados e ultraprocessados e ampliar a oferta de alimentos in natura ou minimamente processados. O percentual mínimo dessa categoria passa de 80% em 2025 para 85% a partir de 2026,enquanto o limite para processados e ultraprocessados cai para 10%.
A escola não é apenas um espaço para ensinar o que é alimentação saudável. Ela também é um ambiente alimentar. Por isso,as políticas escolares precisam considerar não apenas o que é servido,mas também o que é vendido e divulgado,o que aparece nas cantinas,o que circula no entorno das escolas e como as crianças participam das práticas alimentares.
Os grupos de pesquisa evidenciaram diferenças na alimentação infantil relacionadas à renda,ao tempo disponível e às condições de vida das famílias. Nos grupos de maior renda,havia mais planejamento alimentar,acesso a frutas,verduras e laticínios,além do uso de fast food e delivery como formas de recompensa ou lazer. Já nos grupos C e DE,o principal esforço era garantir o básico: arroz,alguma proteína,leite,pão e alimentos que proporcionassem saciedade. Frutas,verduras,peixes e laticínios apareciam como desejáveis,mas muitas vezes dependiam do preço.
Dados do IBGE mostram que a insegurança alimentar grave atingiu 3,2% dos domicílios brasileiros em 2024,chegando a 6,3% na Região Norte e 4,8% no Nordeste. Nos relatos,quando o orçamento é instável,as famílias acabam recorrendo a substituições e optando por alimentos com menor qualidade nutricional,mas que "sustentam" e "não estragam".
Os relatos de pais e mães mostram a preocupação em oferecer uma alimentação mais saudável aos filhos,mas esse desejo disputa espaço com uma rotina que favorece os ultraprocessados. A resposta para esse cenário não pode ser a culpabilização das famílias,especialmente das mães e cuidadoras,que continuam concentrando grande parte das tarefas domésticas,dos cuidados com os filhos e da responsabilidade pela alimentação.
Nesse sentido,estudos brasileiros têm mostrado que as formas de viver,adoecer e se alimentar são influenciadas pelos determinantes sociais da saúde,como renda,trabalho,acesso aos alimentos,publicidade,território e desigualdades de gênero.
Essa compreensão é fundamental para retirar das famílias — especialmente das mães e cuidadoras — o peso da culpa individual pela alimentação infantil e ampliar o debate sobre que tipo de sociedade estamos construindo para garantir o presente e o futuro das crianças.
Proteger a alimentação infantil exige uma combinação de medidas. A primeira delas é fortalecer a alimentação escolar,garantindo refeições saudáveis,culturalmente adequadas e baseadas em alimentos in natura e minimamente processados.
A segunda é regulamentar a alimentação oferecida nas cantinas escolares,no entorno das escolas e a publicidade de alimentos voltada para as crianças.
A terceira é criar condições para que os alimentos saudáveis sejam mais acessíveis,práticos e atraentes.
A quarta é apoiar quem cuida da alimentação em casa,reconhecendo que planejar,comprar,cozinhar,armazenar alimentos e lidar com as preferências das crianças também é trabalho — e,um trabalho concentrado nas mulheres.
A alimentação das crianças não depende apenas dos pais. O que chega ao prato infantil é moldado por um conjunto de fatores sociais,econômicos e culturais. Esse processo começa na renda,passa pelo mercado,pela escola,pelas telas,pela jornada de trabalho e pelas responsabilidades domésticas. Se queremos que as crianças se alimentem de forma mais saudável,precisamos deixar de tratar a alimentação infantil como uma escolha individual das famílias. Ela é resultado de um sistema e uma responsabilidade coletiva.
* Claudia Cheron König é pesquisadora principal do Laboratório de Estratégia,Governança e Filantropia para Transições Sustentáveis,Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS); Bruna Liria Avelhan pesquisadora assistente,Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS); Bruno Valim Magalhães pesquisador,Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS); Renan Rosolem Machado pesquisador,Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS).
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro