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Recuperação da vegetação nativa por 'recaatingamento' ganha força de política pública no Nordeste

Jun 5, 2026 Tecnologia IDOPRESS

Xique-xique: cacto comum é símbolo de resistência na Caatinga — Foto: Reprodução

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GERADO EM: 04/06/2026 - 19:06

"Recaatingamento: Recuperação da Caatinga Avança no Nordeste"

O conceito de "recaatingamento",que visa a recuperação da Caatinga através da restauração da vegetação nativa e valorização das comunidades locais,ganha força no Nordeste brasileiro como política pública. Recentemente,o Consórcio Nordeste e o Senado Federal apoiaram a iniciativa,destacando seu potencial para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. A prática é vista como essencial para revitalizar o bioma,que é um importante sumidouro de carbono,e para combater a desertificação.

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Bioma mais estigmatizado do Brasil,a Caatinga foi,injustamente,associada a paisagens secas e pobres de biodiversidade,mas isso está mudando. Enquanto estudos recentes comprovam a potência de um ecossistema 100% nacional,o conceito do “recaatingamento”,surgido no semiárido baiano,vem ganhando força de política pública.

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Recentemente,o Consórcio Nordeste,formado pelos nove estados da região,publicou uma carta aberta defendendo a incorporação dessas práticas. E,há duas semanas,o Senado Federal aprovou a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga,que aguarda apenas a sanção do presidente da República.

Para ambientalistas,o “recaatingamento”,que une recuperação da vegetação nativa com valorização das comunidades tradicionais,será fundamental para reduzir efeitos locais das mudanças climáticas e de seu agravamento por fenômenos como o El Niño,que intensifica a seca no Nordeste.

O conceito surgiu no semiárido baiano,entre as décadas de 1990 e 2000,nas cidades de Curaçá,Uauá e Canudos. À época,mulheres que realizavam a colheita do umbu,uma fruta nativa,notaram que suas árvores — os umbuzeiros — estavam envelhecendo sem renovação da espécie.

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Umbu: fruto bastante encontrado no semiário baiano — Foto: Reprodução

Coordenador de projetos sociais do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa),Luís Almeida conta que,a partir daí,passou a ser difundida a noção de que era preciso resgatar a vegetação. O conceito de “recaatingamento” tem como pilar o cercamento de uma área para proteger as plantas nativas dos animais e o plantio de mudas com foco em geração de renda. Segundo Almeida,é fundamental que os moradores se tornem “agentes ativos na transformação”:

— Se o bioma enfraquece,as condicionantes de reprodução da vida das comunidades locais ficam mais difíceis — explica o especialista. — Mas não basta chegar lá e só plantar uma muda.

No sertão baiano,cercar a mata era algo inconcebível. Tradicionalmente,na região,os animais de rebanho como bodes e cabras circulam soltos se alimentando da vegetação. Mas,com a redução dessa cobertura devido a diversos fatores,entre eles o aumento da população de animais,estava ficando difícil encontrar árvores típicas como baraúnas e quixabeiras. Surgiu,então,a iniciativa de cercar áreas e trabalhar no manejo para acelerar a recuperação.

Conceito de “recaatingamento” reúne ecuperação da vegetação nativa com valorização das comunidades tradicionais — Foto: Custódio Coimbra

Atualmente,o Irpaa trabalha o “recaatingamento” em 45 comunidades do semiárido,o que corresponde aproximadamente a 900 famílias. O instituto também criou o Centro de Formação Dom José Rodrigues,em Juazeiro,na Bahia,que promove estudos sobre “Convivência com o semiárido” por meio de cursos e outras atividades formativas.

Segundo o MapBiomas,quase 54% de todas as pastagens da Caatinga em 2024 já tinham mais de 30 anos de uso contínuo,o que pode comprometer sua regeneração. O órgão também informa que as pastagens representam 24,7% do bioma,e cerca de um terço disso já completou 40 anos ou mais de manejo ininterrupto.

A preservação da Caatinga traz ganhos não apenas locais,mas para o Brasil. O bioma é um sumidouro de carbono. Segundo pesquisa do periódico Science of the Total Environment,em 2022,mesmo ocupando 10% do território nacional,a Caatinga respondeu por cerca de 50% do sequestro líquido de carbono do país.

Consórcio Nordeste

Na última sexta-feira,o Consórcio Nordeste apresentou uma carta aberta comunicando a decisão de incorporar o “recaatingamento” como chave para recuperação da vegetação. Formada pelos nove estados da região,a autarquia é um colegiado de governança voltado à integração de projetos sustentáveis.

Segundo o documento,a Caatinga tem potencial de bioeconomia único. Doutor em Ecologia e membro da Câmara Temática de Meio Ambiente do Consórcio,Tiago Porto avalia que o bioma une o Nordeste em torno dos mesmos objetivos.

— A Caatinga é uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas,e a gente precisa antecipar esse enfrentamento. Na visão do consórcio,“recaatingar” é também valorizar a Caatinga de pé,com seus produtos e as comunidades locais.

O objetivo da autarquia,agora,é apresentar propostas de recaatingamento e buscar recursos internacionais na COP17 da Desertificação,na Mongólia,que ocorrerá em agosto.

— A desertificação é a principal ameaça da Caatinga. Gera perda completa de produtividade ecológica e agrícola — afirma Washington Rocha,professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do MapBiomas Caatinga.

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