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Arte na cabeça: Melissa de Oliveira expõe na Casa Brasil imagens de cortes de cabelo registradas em favelas

Jul 4, 2026 Tecnologia IDOPRESS

Detalhe de exposição de Melissa de Oliveira — Foto: Divulgação

Com uma Canon T6 — câmera semiprofissional ideal para quem deseja dar os primeiros passos além da fotografia feita pelo celular —,Melissa de Oliveira começou,aos 19 anos,a registrar o cotidiano do Morro do Dendê,na Ilha do Governador,onde nasceu,na Zona Norte carioca. O equipamento,que sua mãe fez um empréstimo no banco para comprar,foi o ponto de partida de uma trajetória que,sete anos depois,levou a fotógrafa à Casa Brasil,no Centro do Rio,com sua primeira exposição solo numa instituição: “Cada cabeça é um mundo”.

— Senti vontade de registrar o que eu via e vivia,porque comecei a olhar para a beleza das coisas da favela — diz a fotógrafa,de 26 anos. — Eu fotografava minha família dentro de casa,os becos,os vizinhos. Depois comecei a tirar fotos de algumas ações sociais,do Dia das Crianças,festival de pipa no Dendê. Minha trajetória começou ali e depois eu fui expandindo. Comecei a postar no Instagram,mas sem nenhuma pretensão. A fotografia para mim sempre foi um meio de documentar alguns momentos do meu cotidiano a partir de uma visão mais crítica e pessoal,não nasci com essa paixão.

Muitos foram os eventos da comunidade que a carioca acompanhou com sua câmera semiprofissional,em especial o 1º Festival de Grau e Corte em 2020. Os registros,em 2023,chegaram à galeria Nonada,que ficava em Copacabana.

O primeiro trabalho apresentado,conta ela,foi um conjunto de registros da cultura da favela: homens empinando motos,cenas cotidianas e cortes de cabelo. Este último tema deu origem ao trabalho contínuo de catalogação desenvolvido por Melissa.

Com fotografias de cortes de cabelo em diferentes estilos e cores,ela reúne na exposição um catálogo visual produzido em cinco comunidades fluminenses: Complexo da Maré,Jacaré,Manguinhos,Chatuba e Jardim das Acácias. O trabalho colaborativo com barbeiros é definido pela fotógrafa como um desdobramento de sua prática.

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Os registros não vêm do improviso. Antes,Melissa escolhe o tipo do corte e os barbeiros,selecionados a partir das suas especialidades.

— Estamos falando de barbeiros que trabalham com recursos limitados,constroem reputações,desenvolvem estilos próprios e conquistam reconhecimento dentro de suas comunidades. É uma verdadeira explosão de arte e estética produzida em contextos que tradicionalmente não são reconhecidos pelos sistemas convencionais da arte e da moda — diz Marcelo Campos,curador da mostra.

Para Melissa,o ato de cortar o cabelo,ou “deixar na régua”,representa uma das principais expressões de autoestima masculina nas favelas:

— O cabelo tem um peso enorme nessa realidade,assim como a profissão de barbeiro.

‘Cada cabeça é um mundo’

O nome da exposição,“Cada cabeça é um mundo”,foi inspirado no álbum homônimo da Timbalada,de 1995. E,em 2024,a pesquisa da jovem chegou a Salvador. Numa residência artística,a fotógrafa passou um mês na capital baiana catalogando cabelos ao lado de dois barbeiros locais,com resultado exibido no mesmo ano na ArtRio.

Na mostra na Casa Brasil,em cartaz até quarta-feira,estão reunidos registros recentes,produzidos desde o ano passado no Rio de Janeiro. Para a exposição,Melissa fez mais duas foto dedicadas a um estilo específico de corte: o Tchotchomeri.

As imagens são acompanhadas de um amplo trabalho de pesquisa sobre a origem dos cortes. Embora nem todas as respostas tenham sido encontradas,Melissa busca compreender essas histórias por meio de barbeiros e moradores mais antigos das comunidades.

O corte do Jaca e o do Manguinhos,por exemplo,surgiram nas próprias comunidades e evidenciam uma dimensão territorial. Já outros estilos se transformam ao longo do tempo,como aconteceu com o Tchotchomeri. O corte,marcado pelos cachos definidos,teria surgido a partir da música “It’s automatic”,um clássico do grupo americano Freestyle,que fazia sucesso nos bailes funk cariocas nos anos 1990. Em determinado trecho da canção,o público balançava os cachos. Como poucos sabiam a grafia correta do inglês,o nome foi sendo adaptado até dar origem ao termo popularizado nas comunidades.

— Quando fui para a Chatuba fotografar esse cabelo,trabalhei com um barbeiro especialista nesse estilo. Conversando com ele,descobri que algumas pessoas chamavam o corte de Tchotchomeri ou até Tonhonhoim. Hoje em dia,muitos o conhecem como Enroladinho de Cria. É muito interessante acompanhar essas transformações e registrá-las como documento — diz Melissa.

* Estagiária sob supervisão de Cláudia Amorim

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