
Piaçava do coco: Produto selecionado — Foto: Divulgação
GERADO EM: 15/06/2026 - 19:46
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
A piaçava,famosa no passado,quando suas fibras eram uma popular matéria-prima para a fabricação de vassouras,hoje é virtualmente ignorada por grande parte dos brasileiros,além de estar ameaçada de extinção por causa do desmatamento da Mata Atlântica. Mas a espécie continua a ser um elemento importante na economia do sul da Bahia,sua região de origem.
Semente de Araucária: Pinhão sai da festa junina e ganha espaço na culinária e no turismo gastronômicoColheita tardia e frio deixam as maçãs desta safra mais doces: entenda o chamado ‘pingo de mel’ nas frutas
O plástico pode ter roubado espaço da fibra da palmeira nas vassouras dos lares brasileiros,mas outro item da cultura tem conquistado adeptos no mundo islâmico: o coco da piaçava tem sido alternativa ao marfim na confecção da masbaha,uma espécie de terço usado nas orações diárias dos fiéis.
A Cooperativa dos Agricultores Familiares do Baixo Sul (Coopafbasul),de Ituberá (BA),trabalhava com outras 120 culturas,além da palmeira,quando começou a vender ao Egito em 2020. Hoje,ela é líder nas exportações. Os embarques de coco da cooperativa somaram 390 toneladas em 2025 e chegaram a 233,5 toneladas no cinco primeiros meses deste ano.
Em 2026,a cooperativa espera exportar 500 toneladas.
Continuar Lendo
Investimento: Mesmo com preço e demanda em alta,falta crédito para plantar cacau
— A gente não conhecia a dimensão desse trabalho e o quão importante ele seria para região toda — afirma Gileno Araújo dos Santos,diretor-executivo da Coopafbasul.
Inicialmente,a cooperativa só trabalhava com a fibra da piaçava,mas ela passou a olhar com mais atenção para o coco em 2020,após ter sido procurada por um comerciante egípcio que atuava no ramo. Interessado na estrutura logística da cooperativa,o comerciante encomendou já no primeiro ano 42 contêineres de 28 toneladas.

Gileno Araújo dos Santos,diretor-executivo da Coopafbasul (Cooperativa dos Agricultores Familiares do Baixo Sul) — Foto: Divulgação
— Ele queria um contrato de três mil toneladas por ano,e fomos atrás desse volume. Fizemos um levantamento de quantos cooperados tinham coco e percebemos que o volume era bem expressivo — recorda Santos.
Hoje com 3,8 mil cooperados,a Coopafbasul passou a vender também para China,Turquia e Indonésia,além do Egito.
Cremes que vêm da vaca: cosméticos usam sebo bovino e conquistam adeptos de ingredientes naturais
Também cresceu o valor agregado dos embarques. A partir da seleção prévia dos cocos que tinham mais qualidade e características mais propícias para a produção da masbaha,a Coopafbasul passou a vender o coco de piaçava não mais por milheiro,mas por quilo. Com isso,o preço por quilo,que era de R$ 0,20 até então,subiu para R$ 2,80.
O volume do embarques,em contrapartida,caiu pela metade,já que a cooperativa passou a descartar os cocos avaliados como de qualidade inferior. A Coopafbasul criou quatro classificações para o coco da piaçava para exportação,e mais da metade da produção passou a se destinar para a queima na indústria.
Santos relata que o coco que vai para a exportação tem que ter no mínimo cinco centímetros de diâmetro,já que o trabalho que a produção da masbaha no Egito é manual,detalha. A participação da piaçava no faturamento da cooperativa já é de 10%,mas,se considerada também a queima,a fatia chega a cerca de 20%.
Drinks novos: Umbu,licuri,mangaba e outros ingredientes típicos dão origem a nova coquetelaria nordestina
Mohamad Al Bukai,sheik da Mesquita Brasil,diz que o comércio do coco de piaçava para produção de masbaha tem um valor especial,dada a simbologia do item religioso.
— Isso começa com motivos comerciais,mas acaba também servindo como ponte para transportar também culturas e,às vezes,práticas religiosas— afirma Bukai.
Segundo ele,o próprio termo Bahia é de origem árabe,que sugere “brilho”,“beleza”.
Sem mudanças genéticas: Guardiões de sementes preservam cultura alimentar em pequenas propriedades
— Baya,um nome árabe,foi o termo que os primeiros escravizados usaram para fazer referência à região quando chegaram ao Estado — diz.
De fato,parte dos africanos escravizados que chegaram à Bahia seguia a religião mulçumana. Eles saíram da África Ocidental e do Sudão Central,regiões onde hoje ficam os territórios de países como Nigéria,Benin,Togo e Senegal.
— O mundo islâmico é muito maior do que o mundo árabe. São mais de 60 países islâmicos,e 80% deles não são árabes— comenta Bukai.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro