
Flávio Bolsonaro lança jingle com slogan 'Vem com Fé' — Foto: Imagem obtida pela coluna do Lauro Jardim
GERADO EM: 15/06/2026 - 20:10
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem buscado alternativas para explorar a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro e driblar o veto judicial à participação do pai na campanha,em uma estratégia semelhante à do PT em 2018,quando a detenção de Lula não foi obstáculo para Fernando Haddad usar a relação com o padrinho político.
Bolsonaro está em prisão domiciliar e impedido de usar as redes sociais,tática adotada em pleitos anteriores. A alternativa,então,é utilizar vídeos antigos,jingles e conteúdos produzidos com inteligência artificial para manter o ex-presidente presente.
Oito anos atrás,Lula estava detido em Curitiba,após condenação em um processo da Lava-Jato depois revertida pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O PT chegou a lançar sua candidatura,depois barrada pela Justiça eleitora. Haddad assumiu a chapa e transformou o aliado em seu principal ativo político.
O slogan "Haddad é Lula" se tornou uma das marcas da eleição. A imagem do hoje presidente aparecia de forma recorrente em programas eleitorais,materiais de campanha e atos públicos,e uma foto de Haddad atrás de uma máscara com o rosto de Lula circulou amplamente na época.
No caso de Flávio,porém,a estratégia vai além da associação eleitoral,com a pré-campanha e aliados buscando reproduzir símbolos,rituais e elementos que marcaram a trajetória política de Bolsonaro. A tentativa é manter viva a conexão emocional com o eleitorado conservador mesmo sem a presença direta do ex-presidente e reforçando a ligação entre o senador e o líder do bolsonarismo para além do sobrenome.
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Um dos exemplos mais recentes foi o lançamento do jingle "Vem com Fé",divulgado neste mês nas redes de Flávio. A peça utiliza imagens antigas de Bolsonaro durante o período em que ocupava a Presidência da República,registros da família reunida e cenas de mobilização de apoiadores. A mensagem central é de continuidade e procura apresentar Flávio como herdeiro natural do legado político construído pelo pai.
Outro episódio ocorreu durante a polêmica envolvendo o Pix. Flávio também compartilhou em suas redes sociais um vídeo que,segundo integrantes da pré-campanha,foi produzido espontaneamente por apoiadores. A peça utiliza inteligência artificial para recriar Bolsonaro defendendo que o Pix pertence aos brasileiros e destacando que o sistema foi desenvolvido durante seu governo.
A utilização recorrente da imagem de Bolsonaro ocorre num momento em que o ex-presidente enfrenta uma série de restrições impostas pelo STF. Condenado no julgamento sobre a tentativa de golpe de Estado,ele cumpre atualmente prisão domiciliar e está proibido de utilizar redes sociais,inclusive por intermédio de terceiros,e também de fazer aparições em novos registros.
Nos últimos meses,familiares do ex-presidente passaram a adotar estratégia semelhante em seus próprios perfis. Quando visitam Bolsonaro,os filhos costumam publicar fotografias antigas ao lado do pai,mantendo sua imagem em circulação mesmo sem novos registros produzidos durante o período de prisão domiciliar. Carlos Bolsonaro,por exemplo,é um dos que mais recorrem ao artifício.
A lógica também passou a orientar a campanha presidencial de Flávio,que em agendas realizadas pelo país,tem reproduzido práticas que marcaram a trajetória política de Bolsonaro. No fim de maio,apoiadores foram mobilizados para recebê-lo no aeroporto de Brasília após uma viagem aos Estados Unidos. Episódio semelhante ocorreu durante agenda em Curitiba nos dias que seguiram sua chegada ao Brasíl.
O formato remete às recepções frequentemente organizadas para Bolsonaro durante e após seu mandato presidencial,quando simpatizantes eram convocados para acompanhar deslocamentos pelo país.
A tentativa de reproduzir a liturgia política do bolsonarismo também aparece na relação com os apoiadores. Em eventos recentes,Flávio passou a ser chamado de "mito",expressão associada a Jair Bolsonaro e que se transformou em uma das principais marcas de sua identidade política.
As referências ao pai também aparecem no discurso e até mesmo na forma de apresentação do senador. Durante viagem a Minas Gerais no início de junho,Flávio utilizou em entrevistas e compromissos públicos uma camiseta com a frase "Cê é fi de quem?",expressão inspirada no modo de falar mineiro. Na mesma viagem,ao comentar sua candidatura,o senador procurou reforçar simultaneamente a identificação com Bolsonaro e a construção de uma imagem própria.
— Eu obviamente tenho sangue de Bolsonaro. Eu defendo os mesmos princípios,as mesmas bandeiras. Agora,cada um tem um perfil diferente — afirmou ao jornal O Tempo.
Na entrevista,Flávio também argumentou que acumulou experiência ao longo de mais de duas décadas de vida pública e sugeriu que um eventual governo seu teria diferenças em relação ao do pai por contar com maior conhecimento da máquina pública e uma rede de relações políticas mais ampla.
A fala resume uma das principais tensões da campanha,que enfrenta o dilema de,ao mesmo tempo,se apresentar como sucessor legítimo do bolsonarismo,enquanto tenta convencer eleitores de que possui características próprias e pode representar uma versão mais moderada do movimento.
Nos bastidores,interlocutores do senador afirmam que a associação constante com Bolsonaro é considerada natural. Além da relação familiar,o ex-presidente continua sendo visto como o principal líder da direita brasileira e a maior referência política para o eleitorado conservador que a campanha pretende mobilizar.
Aliados ressaltam,que a estratégia desenhada para este ano não se limitava à reprodução da imagem do ex-presidente. Até a eclosão da crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro,dono do banco Master,e o financiamento do filme Dark Horse,a campanha vinha investindo em uma tentativa de apresentar ao eleitor um Flávio com identidade própria.
A ideia era destacar um perfil considerado mais moderado,mais leve e com maior capacidade de diálogo do que o do pai. Reservadamente,integrantes da campanha costumam definir o senador como um Bolsonaro "vacinado",ou seja,alguém que compartilha os mesmos princípios e bandeiras do ex-presidente,mas que teria aprendido com os erros e acertos do governo anterior.
O desgaste provocado pelo caso Vorcaro,contudo,alterou os planos da equipe. Segundo pessoas próximas à campanha,a repercussão negativa do episódio obrigou o grupo a recuar temporariamente na estratégia de expansão para além da base bolsonarista e a avaliação interna passou a ser a de que era necessário voltar alguns passos e reforçar primeiro os vínculos com o eleitorado mais fiel do ex-presidente antes de retomar o esforço para conquistar eleitores independentes.
Integrantes da campanha reconhecem reservadamente que,embora pesquisas indiquem que boa parte da base bolsonarista já tenha migrado para Flávio,o ex-presidente continua sendo o principal ativo eleitoral do projeto. A aposta é que,uma vez consolidada essa etapa,a campanha volte a investir na construção da imagem de um candidato capaz de dialogar para além da bolha conservadora.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro