
Kadu,do Bracarense: uma unanimidade — Foto: Divulgação
Fui ao teatro assistir a “Nelson Rodrigues — O passado sempre tem razão”,um ótimo monólogo com Bruce Gomlevsky enfurnado na cabeça do anjo pornográfico. No espetáculo,devaneios,certezas e fraquezas do escritor são alinhavados por frases emblemáticas. “No Rio de Janeiro há de tudo — e até cariocas”. “Por enquanto o ser humano é apenas um projeto sempre adiado”. “Em amor,deve-se mentir,sempre!”. Concordo com várias delas e,vez ou outra,me pego repetindo alguma. Mas se tem uma que não me desce é a tal da “Toda unanimidade é burra”. Para ter escrito isso,Nelson certamente não conheceu o Kadu.
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Kadu Tomé,o Kadu do Braca,o Kaduzinho,é unanimidade. Todo mundo gosta dele. Não tem erro. Até São Paulo gostou. Gostou tanto que o roubou da gente. E quatro anos e dois bares em terras paulistanas depois,é difícil que ele volte a morar aqui. Vamos ter que nos contentar com encontros relâmpago para tomar meia dúzia ancorados num balcão.
Criado na Ilha do Governador,vascaíno,apaixonado por samba e por gente,aprendeu a gostar de botequim com seu avô,Arnaldo. Na época,não era bonito ser dono de bar. Não tinha esse negócio de empreendedor,não. Era coisa para quem não tinha dado certo. Os filhos de portugueses e espanhóis que tinham chegado aqui para fazer a vida tinham estudado e virado “dotô”. Ficar com a barriga no fogão ou no balcão era motivo de vergonha.
No Maracanã: Naquela mesa estão faltando eles
Mas estava no sangue,na alma. Com 15 anos,em vez de ir visitar o Mickey,fez sua trouxinha e foi ser garçom na birosca do Leblon ganhando 10% dos 10% do Chico. Fez de tudo por lá,principalmente amigos. Um dos mais próximos é o seu Manuel,do Jobi. Até hoje,volta e meia saem em caravana para desbravar bares,principalmente na Zona Norte. E ai do Kadu se vier ao Rio e não for lá pedir a bênção.
De riso fácil e voz mansa,Kadu se acomoda onde quer que chegue. Mistura-se,toma a forma do lugar. Encosta o cotovelo onde tiver espaço e,em pouco tempo,parece que frequenta o ambiente há anos. É nesse miudinho que ele acaba sendo testemunha etílica das mais alegóricas histórias de botequim das últimas três décadas.
Chope com ou sem colarinho? Questões inegociáveis na mesa do bar
Participou do movimento black bloc chope,de balaclava e tudo,ao lado do Jaguar no protesto para reaver o nome do Real Chopp. Foi um dos primeiros a seguir a dica do amigo Guilherme Studart e apostar no Bar do Omar quando ainda era um misto de hamburgueria e mercearia. Também virou petisco no Aconchego Carioca,o almofadinha,com massa de tapioca e queijo coalho. A cara dele: engomadinho demais para um botequim,mas não poderia estar em outro lugar.
No Leblon: Tudo novo de novo nos 70 anos do Jobi
Uma vez,tive a missão de aferir o chope mais gelado da cidade para uma reportagem. Não é que eu não entenda do riscado,mas pedi ajuda. Além de um técnico com termômetro em punho,precisava de alguém com mais,digamos,lastro. Convoquei o Kadu. Eram dez bares na rota. Começamos apenas nós três,no Bracarense,e terminamos num bonde de uns 20,no campeão Cachambeer.
Poderia usar esses e outros episódios para alimentar uma rixa boba e dizer que São Paulo não tem isso,que isso raramente aconteceria por lá. Bobagem. São Paulo,agora,tem o Kadu. E isso é coisa pacas.
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