
Estudo explica por que as pessoas deixaram de enterrar familiares dentro de casa — Foto: Linda M. Nicholas/Field Museum
Durante milhares de anos,viver ao lado dos mortos era parte da rotina de diversas sociedades. Enterrar familiares dentro ou ao redor das próprias casas foi um costume comum em diferentes regiões do mundo,mas a prática acabou desaparecendo ao longo da história. Agora,um estudo publicado na revista científica American Antiquity ajuda a explicar por que essa tradição foi abandonada.
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A pesquisa,liderada pela arqueóloga Sabina Cveček,do Field Museum,em Chicago,analisou 49 sítios arqueológicos e comparou essas evidências com registros etnográficos de 60 sociedades documentadas nos últimos séculos.
Os resultados mostram que cerca de um terço (33%) das comunidades antigas enterrava parentes no ambiente doméstico,enquanto esse hábito aparece em apenas 12% das sociedades mais recentes.
Segundo os pesquisadores,o sepultamento residencial fazia parte da vida cotidiana e reforçava a ligação entre diferentes gerações de uma mesma família. As casas não eram apenas espaços de moradia,mas também locais de memória,onde vivos e mortos compartilhavam simbolicamente o mesmo ambiente.
Durante décadas,arqueólogos acreditaram que enterrar familiares dentro de casa ajudava a marcar a posse de terras por grupos sedentários. No entanto,a nova pesquisa não encontrou evidências estatísticas que sustentem essa hipótese.
Na avaliação dos autores,a principal razão para o desaparecimento da prática foi a transformação cultural promovida pela expansão de grandes religiões e por processos de colonização.
De acordo com o estudo,tradições como o cristianismo e o hinduísmo passaram a incentivar novos rituais funerários,transferindo os sepultamentos para cemitérios comunitários ou adotando práticas como a cremação.
Os pesquisadores citam diversos exemplos arqueológicos que ilustram o costume. Na Sérvia,o sítio arqueológico de Lepenski Vir,ocupado entre 6300 e 6000 a.C.,revelou túmulos de crianças posicionados junto às paredes das casas.
Já em El Palmillo,no estado mexicano de Oaxaca,uma residência habitada entre 700 e 850 d.C. possuía câmaras funerárias subterrâneas acessadas diretamente pelo pátio da casa. O local ainda apresentava bancos de pedra voltados para os túmulos,indicando que esses espaços faziam parte da convivência cotidiana dos moradores.
Para os autores,compreender que muitas comunidades antigas conviviam fisicamente com seus ancestrais ajuda a evitar interpretações baseadas em valores contemporâneos.
O estudo sugere que a separação entre espaços destinados aos vivos e aos mortos,hoje considerada natural em grande parte do mundo,é resultado de mudanças culturais relativamente recentes na história da humanidade.
© Reportagem diária do entretenimento brasileiro